sábado, 22 de dezembro de 2018

Eva II

Nos salões


Apareço mais uma vez pelos salões da madrugada tentando não dar ouvidos aos murmúrios internos que dizem "olhe como a vida é triste" ou "perceba mais uma vez a maldade humana". O enredo muda algumas vezes, mas a moral das histórias pensadas são sempre aterrorizantes.

Resolvo dançar noite à fora, mas bata um tropeçar na escrivaninha para me lembrar que tudo é fantasia. Brinco com a cadela, porém, até ela percebe que não é hora disso. "Melhor deixar para depois", ela parece me dizer ao me fitar os olhos.

Ninguém além dos meus delírios resolve dançar comigo, estão todos em seus aposentos após um final de semana intenso. Vou até a porta, abro-a e vejo o céu. Está estrelado e se a sanidade e olhar julgador dos outros não me impedissem, ficaria contando uma a uma as estrelas, pensando em como são, a olho nu, semelhantes e tão individuais para a constelação.

O relógio não me avisa mais acerca do horário. Há algum tempo deixei de me guiar por ele. Sei que pela ordem natural, eu deveria estar sonhado de fato. Ouço uma voz baixinha me falando: "Tente descansar, logo amanhece e tudo passa".

Quero acreditar no que ouço embora a agitação matutina tem me feito ficar perdida e me sentindo uma inútil. "Não pense nisso, amanhã será um bom dia, tudo pode ser diferente". Quero acreditar nisso. Então, pouco a pouco deixo os salões e subo, degrau por degrau, a escada da vontade, procurando o meu local de descanso...

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