sábado, 22 de dezembro de 2018

Eva III

A tartaruga

Gosto do meu silêncio. Não daqueles que as circunstâncias me dão, mas daquele que eu escolho. Como me faz bem chegar em casa após um dia de estágio em uma sala de 30 alunos e me deparar apenas com os meus animais me esperando. Abro com calma as portas, adentro o quarto, observo as folhas da mangueira se balançando e penso o quanto me falta para me tornar uma adulta responsável e feliz. "Essas duas características... serão possíveis juntas?" Fico pensando.  

Um olhar para o relógio basta para que eu me lembre que o almoço está na geladeira. "Talvez uma salada de couve-flor", falo para mim mesma como quem organiza as ideias. Retiro as panelas, ponho-as no fogão enquanto ouço o ruído da comida esquentando. Tudo pronto. 11 horas. Ligo a televisão e percebo pelo jeito de falar do apresentador no telejornal que a vida lá fora está corrida. Assaltos, ausência de saneamento básico, atrasos no ônibus... Uma desolação social. Como viver em um mundo tão dado para a luta? Como eu que sou tão aquém de situações que demandam celeridade pode viver em um local assim? Não sei como... Mas tampouco imagino que em outro lugar possa ter o silêncio que desejo. "Talvez tudo seja resolvido dentro de mim". Talvez.


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